Diário de uma cegueira – Um ano depois.

Em outubro fez um ano que eu perdi a visão do olho esquerdo e parte do direito. Um ano turbulento, louco. De uma vida tranquila e estável, fui pro buraco, mergulhei em uma depressão e me perdi. Mas e agora, depois de um ano?

Fui incentivada pela minha terapeuta a escrever sobre o que mudou nesse ano.  E olha, muita coisa mudou. Primeiro: o ano voou e eu nem percebi. Coisas boas aconteceram e como pra qualquer outra pessoa, merdas também. Em se tratando de Polyanna, muitas merdas.

Eu reaprendi a andar sozinha. Tombo após tombo, escorregões. Pedir ajuda a alguém nunca foi fácil pra mim. Pois agora preciso que o Pedro me ajude nas escadarias do cinema ou que a Pri me deixe segurar o seu braço enquanto andamos durante a noite. O senso de profundidade que antes era zero, começou a voltar, mesmo que nunca mais será o mesmo. Se bebo, cismo que posso me virar sozinha, e conto orgulhosa os roxos pelo corpo decorrente dos inevitáveis tombos, que vieram por conta da falta de visão.

Perdi um (bom) emprego por causa da minha condição. Processei. Fiz um acordo. Caí em depressão. Fiquei na cama por dias, não tomava banho. Recebia amigos que na marram me tiravam de casa, mas antes me obrigavam a tomar um banho. Não me orgulho, longe disso. Mas é bom frisar que a depressão não tem cara não. É um processo duro e lento, em que a pessoa tenta vencer sozinha. Eu agradeço à aqueles que estiveram e ainda estão ao meu lado. Descobri que eu já tinha um quadro de depressão antes, mas que a cegueira foi o gatilho pra piora. Não uso nenhum medicamento. Vou à terapia e isso tem me ajudado muito, muito.

Escrevi 100 páginas da minha tese de mestrado e estou prestes a submeter. Pra mim, uma vitória. Nunca pensei que eu conseguiria terminar depois de tantas pedras pelo caminho. Consegui um novo emprego como estagiária em agosto e mês passado recebi uma proposta para continuar, agora como contratada. No dia que a minha chefe me chamou pra uma reunião para falar sobre o meu futuro na empresa, foi o dia em que eu perdi a visão. Não  me contive e chorei. Porque vivi tantas coisas nesse ano que, meu ano novo não podia ter começado de maneira melhor: com um emprego num lugar que eu amo, com pessoas maravilhosas e que eu adoro.

Muito ainda há de vir. Eu renasci. Sou outra pessoa. Mais calma, mais centrada, com menos medo do que os outros pensam ou falam de mim (trabalhando nisso!). Aos poucos estou reaprendendo as coisas que eu deixei pra trás. Principalmente a me amar e a me cuidar. Tenho viajado mais. Passado mais tempo comigo mesma. Voltei a nadar semanalmente, mesmo com o frio que já chegou. Fazendo planos para o próximo ano. E agora, contando os dias para ver minha família em breve.

Precisei destacar esse post com uma foto minha que sintetiza bem como eu estou nos últimos meses: feliz e plena!

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