A Noruega é o melhor lugar do mundo para se viver (?!)

Me deparei com um link no Facebook, sobre um especial do Globo Repórter sobre a Noruega. Ao assistir, automaticamente comecei a rir. Foi gravado no verão, basicamente nas três maiores cidades da Noruega e focado no que a maioria das pessoas sabe ou já ouviu falar sobre o país: petróleo, fjords, qualidade de vida, Vikings… Pra começar, gravar no verão é fácil, quero ver voltar agora em novembro!

Vamos aos pontos. Eu amo viver aqui e não, não voltaria a morar no Brasil. Sou brasileira com muito orgulho,não quero passaporte noruga, amo o meu país, mas escolhi viver aqui. Cheguei a Oslo há quase 4 anos, sem saber um ÅÆØ, sem conhecer ninguém. Hoje tenho amigos noruegueses, uma vida norueguesa, não sou fluente na língua por culpa minha, mas me viro bem.

O que vemos na mídia é uma Noruega sem problemas, lugar de gente feliz e qualidade de vida acima da média.  O que eu quero com esse post não é falar mal da Noruega, mas mostrar que, todos os lugares no mundo têm seu lado negativo. Como diz o ditado, “é impossível ser feliz o tempo inteiro”, certo? E eu acho importante mostrar isso.

Mas, antes de escrever o seu comentário me enchendo o saco julgando, leia:

10 coisas que vão acontecer quando você se mudar para Noruega.

E mais aqui.

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Estações do ano bem definidas.

Esqueça os 6 meses ou mais de verão e se contente com um mês, se for um bom ano. Caso contrário marque sua passagem para um lugar quente durante a Páscoa e recarregue a vitamina D. Estamos em novembro, hoje a primeira nevasca caiu em Oslo e a previsão para esse ano é de um inverno bem rigoroso.

Novembro, para mim, é o pior mês do ano. Entra o horário de inverno, escurece cedo, o frio vem com tudo… Amanhece tarde e escurece por volta das 15h, 15h30, ao contrário do verão em que o sol-da-meia-noite atrapalha o nosso sono. Agora é hora de ter problemas para levantar da cama, afinal, o sol mal dá as caras.

Dezembro/ janeiro as coisas começam a melhorar com a chegada da neve. O frio continua, mas ao menos existe o mínimo de luz. Hora de caprichar na dose de vitamina D, mesmo se sua pele for morena/ negra e se dedicar à atividades físicas. Eu sempre passo o Natal no Brasil e volto recarregada e pronta para encarar o inverno. Adoro neve, adoro esquiar, então não tenho problema algum. Ainda vejo a neve como algo mágico e lindo.

Obviamente, com o frio e a escuridão, os índices de suicídio, depressão e alcoolismo aumentam. Isso não é balela, acontece mesmo. Ficar sem ver a luz do sol por meses é algo extremamente triste. Aqui em Oslo o sol não some por completo, mas ao norte do país, socorro! Não tem aurora boreal que salve.

Dupla-moral

Sempre discuti dupla-moral por aqui com alguns amigos. Um dos maiores exemplos, na minha opinião, é o Nobel da Paz. Acredito que eu não precise explicar, é só vocês verem a lista dos ganhadores. Já falei tanto sobre isso que pra me poupar de ouvir merda, nem falo muito.

O uso de armas é extremamente restrito ao exército. A Noruega é o país mais pacífico no mundo, de acordo com o estudo Global Peace Index , no entanto, o sétimo maior exportador de armas, munições e tanques, de acordo com um estudo realizado pelo Statistisk sentralbyrå. Fora que a polícia não tem treinamento, o que literalmente leva alguns dos policiais a atirarem no próprio pé, já que não fazem ideia de como usar o armamento. Tragicômico.

Outro ponto seria o fato de que a Noruega é parte da NATO/OTAN. O problema é que alguns membros da OTAN estão envolvidos em guerras, como no Iraque ou no Afeganistão. Dependendo da sua posição sobre a moralidade desses conflitos, você sabe que exportar armas para os países que lutam por lá, pode ser problemático. A Noruega tem também, suas próprias tropas no Afeganistão, e isso torna as coisas ainda mais complicadas. Um grande desafio é impedir que importadores de armas norueguesas os reexportem para países em guerra. No caso dos países nórdicos e dos seus aliados da NATO, a Noruega não exige declarações dos utilizadores finais que impeçam as reexportações.

Pior ainda é a política de petróleo. A Noruega é o terceiro maior exportador mundial de petróleo e gás, fornecendo mais de um terço das receitas do governo. Em 2008, quando a duplicação dos preços mundiais do petróleo derrubou milhões de pessoas nos países em desenvolvimento, as receitas do petróleo elevaram os cofres do governo em 17 vezes o valor da ajuda externa da Noruega. A Statoil, maior refinaria norueguesa, é detida a 67% pelo governo, opera em vários países acusados de corrupção e de graves registros de direitos humanos, como o Azerbaijão, Angola, Irã e Nigéria, e Iraque.

No ambiente, a imagem bonitinha da Noruega também é fora da realidade. É verdade que quase toda a eletricidade doméstica vem de usinas hidrelétricas e a Noruega foi uma das primeiras a adotar um imposto de carbono para combater o aquecimento global, em 1991. No entanto, com 0,1% da população mundial, a Noruega emite 0,3% de emissões de gases de efeito estufa; Se as exportações de petróleo estiverem incluídas, o valor pode ser de cerca de 2%. O país é visto internacionalmente como um modelo de papel verde por muitos por sua promessa de neutralidade climática em 2030, sua dependência de energia hidrelétrica e planos ambiciosos para carros elétricos. Mas isso será parcialmente alcançado pela compra de reduções de carbono em outros países, não reduzindo a zero as próprias emissões daqui. Um processo acabou e ser aberto contra o governo norueguês por uma decisão de abrir o mar de Barents para exploração de petróleo, que os ativistas dizem violar a constituição do país e ameaça o acordo climático de Paris.

Educação, sistema de saúde. Pageu os impostos e fique bem!

Já escrevi sobre o sistema educacional aqui.

Estou no final do meu mestrado na Universidade de Oslo e mais do que satisfeita. Eu pago cerca de 800kr (80 euros) por semestre, e só. Tenho acesso a todo material gratuitamente, disponibilizado pela UiO, além de um suporte incrível pelo meu departamento (Mídia). Como estou tratando a minha doença ocular agora, avisei a administração do meu curso e enviei um atestado médico, só por precaução. Me surpreendi com o suporte oferecido pelos professores e administração, algo que nunca tive no Brasil. Mais do que isso, o nível dos docentes, a qualidade das aulas e seminários, nada se equipara ao que tive no Brasil. Temos muitas viagens de campo, em que a faculdade banca hotel, voos e um jantar em grupo, fora o suporte para irmos à conferências e seminários fora do país. Costumo dizer que aprendi a estudar aqui. Somos obrigados a ler mais de 1000 páginas por matéria, todo semestre. Se não ler, não passa. Se não passar, não recebe o suporte financeiro do governo: uma bolsa mensal para que os estudantes não tenham que estudar e trabalhar ao mesmo tempo.

Ok, as taxas por aqui são insanas. De até 36%. Mas o retorno é imediato. Como muitos sabem, estou tratando uma doença nos olhos. Foi algo rápido, acordei um belo dia cega do olho esquerdo. Agradeço todos os dias por pagar as taxas. Caso contrário, em bom português, eu estaria fodida. Cada ida ao médico público custa 345kr (cerca de 35 euros). Minha média em um mês, sem contar os exames e intervenções, foi de uma ida diária. Se você for bom de matemática já caiu duro da cadeira. MAS, como eu sou uma cidadã do bem e cumpro com os meus direitos, após gastar uma certa quantia, um pouco mais de 2500kr (250 euros), tudo é gratuito (até o final do período estipulado por eles, no meu caso, 31 de dezembro): medicação, atendimento, intervenções, etc. O chamado frikort. Tudo o que paguei acima do valor que eu citei, vai voltar pro meu bolso. Fora que, alguns dos medicamentos fora deste tratamento, como antialérgicos, eu pago somente 60% do valor, porque é algo que meu médico atestou que eu preciso constantemente.

Pessoas

Falar de gente é bem relativo, até porque gosto é que nem bunda. Eu falo muito, me movimento bastante quando falo, sinalizo, aponto. Desde que me mudei para cá mudei muito. Sou mais centrada, falo bem menos, fujo de fofoca e de confusão. Meu grupo de amigos é bem internacional e as pessoas mais próximas são norueguesas – o que me fez aprender muito sobre como respeitar a cultura e as pessoas. Além de uma amiga brasileira que vive em outra cidade e um amigo brasileiro aqui em Oslo. Norueguês custa a virar amigo, mas quando vira, é para sempre. Ouvi isso 3 anos atrás e hoje, mais do que nunca, tenho certeza. E mais: amigo fiel e leal, pau pra toda obra.

Obviamente eles são diferentes. Ninguém é como o brasileiro; vamos combinar que às vezes a gente chega a ser insuportável. As pessoas são mais fechadas e reservadas, o que faz muita gente a achar que eles são frios. Uma coisa que eu nunca vou mudar é deixar de abraçar as pessoas. Abraço sempre, até desconhecidos e já aviso: desculpa, eu abraço as pessoas. Recado dado, ninguém fica sem graça. Eu particularmente não tenho problema algum com os noruegueses, me mantenho na minha e respeitando sempre, todas as vezes que conheço alguém.

Se a Noruega é o melhor lugar do mundo pra se viver, claro, depende de pessoa pra pessoa. Eu estou bem satisfeita aqui, tenho uma boa vida, bons amigos, mas sinto falta da minha família. Mas a  vida é feita de escolhas e eu acertei a minha. Antes de acharem que aqui é o melhor lugar do mundo, pesquisem, joguem no Google, leiam. Nem tudo o que se væ é real. Menos fantasia, mais realidade, por favor.