Quando foi a última vez que você viu algo com outros olhos?

Cá estou eu, pelo 16ºdia seguido para meu checkup diário. O que eu tenho chamado de checkin, porque o processo, além de chato e entediante, já se automatizou.

Vamos aos fatos. Há algumas semanas atrás eu me queixei de terríveis dores de cabeça que estavam me atormentando e que para mim não passavam de sintomas de stress: finais na faculdade chegando, etc., até que em um belo dia de sol, eu acordei cega do olho esquerdo. Boom!

Cega. Engraçado porque eu sempre tive medo de perder os movimentos das pernas, de perder a audição por completo. Mas o poder de enxergar? Imagina, vão sempre haver oftalmologistas, óculos e lentes de contato. Errado. Me vi 100% cega em um olho que já era mais fraco, mas que eu nunca imaginei que um dia me deixaria na mão.

Do médico particular para o Hospital universitário foi um pulo. 9 especialistas sem saber o que estava acontecendo, excitados com a novidade, já que por aqui eu sou o primeiro caso pelo ao menos dos últimos 15 anos. Contato via twitter com o grande Dr. Raphael Santos, que conhece meus olhos e me acalmou: “Toxoplasmose não é comum na Noruega, mas o tratamento é simples”. Mas, gente, cega, eu?

Mas voltamos ao ponto desse texto: quando foi a última vez que você viu algo com outros olhos? Não estou falando da roupa da sua amiga, do carro do vizinho. Mas, sobre quando você olhou para algo/ alguém e se viu em outro plano?

Assim que ouvi sobre a minha visão, me vi pensando sobre isso. Sobre quantas vezes eu vi o outono chegar por aqui, pegava uma folha, tirava uma foto e postava no Instagram. Dessa vez me vi olhando para as árvores quase nuas e agradeci por ter a oportunidade de continuar enxergando, mesmo que pela metade. Revirei fotos antigas e sorri ao relembrar as minhas últimas férias no Brasil com a minha família, o sorriso banguela da Elisa pelo FaceTime e os dentes enormes e brancos da Bruna quando ela veio me ver em Junho. A primeira foto que eu recebi do bebê da minha amiga-irmã, Arthur, de olhinhos arregalados. Uma foto da minha mãe de calça jeans, enviada pelo meu irmão e que me fez rir por minutos.

E é o que eu tenho feito todos os dias quando eu acordo e vejo que agora, tudo mudou. Eu paro e começo a ver as coisas com outros olhos. Outro sentido. Outro valor.

Não se engane. Eu não estou triste, decepcionada, depressiva ou pagando de Drama Queen (o que eu já sou por natureza). Não sinta pena ou dó de mim. Tenho sido forte e positiva, (fato que, para os que me conhecem é praticamente impossível). Feliz por ter tanta gente com boa energia por perto. Agora tenho buscado informações e grupos de apoio onde eu possa fazer um voluntariado e de alguma forma fazer a diferença. Mas, como tudo na vida, fica o questionamento, outra vez: Quando foi a última vez que você viu algo com outros olhos?

Se você me conhece, sabe que eu escrevo, quase nunca falo sobre problemas pessoais. Hoje eu precisei escrever, no caminho de volta da minha consulta, voltar a ter meu diário. Não são estão sendo dias faceis, tenho ficado muito tempo sozinha exatamente para tentar entender e aceitar isso. A aceitação veio com facilidade, até o meu primeiro tombo de escada. “É, com esse daí eu já não posso contar mais”, pensei.

Sobre a minha a minha doença, volto a escrever depois, com calma. É mais comum do que as pessoas imaginam e, pasme, muita gente tem e não faz a mínima ideia.

Essa foto abaixo foi a última foto que eu tirei antes de começar a perder o olho esquerdo, no dia seguinte. E por mais estranho que pareça, antes de tirar eu me sentei, e comentei o quão lindo o dia foi e estava terminando. Um dia frio, com sol, muitas nuvens e cores. Nem quis editar. Acho que é forte o suficiente para me perguntar todos os dias a partir de agora, quando foi a última vez que eu vi algo com outros olhos.

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Um comentário sobre “Quando foi a última vez que você viu algo com outros olhos?

  1. Agora entendi um pouco mais o que passou. Obrigado por compartilhar o post, me sinto um pouco com você mesmo estando de longe.
    Fico feliz com a sua positividade e com a sua força pra focar em outras coisas. Seu projeto de se voluntariar é lindo. O texto também ficou lindo, e forte (como a mudança da qual você fala em si).
    Estou de longe, mas estou com você.
    Ainda torço pra que nessas minhas andanças pelo planeta, uma hora vai coincidir de a gente se encontrar em algum lugar por aí (Ásia, África?). Estive pensando em vc umas semanas atrás, na verdade. O natal tá “chegando”, e quando eu falo de natal a memória que vem pra mim sao os natais e reveillons que passei com vc. Queria poder programar da gente se encontrar no próximo natal de novo, mas acho que vc já tem outros planos – e fora isso, eu mesmo nao faço ideia por onde estarei (provavelmente será em algum lugar onde sequer celebram a data).
    Mas nao importa, é só saudosismo. Eu sei que a gente vai se encontrar de novo, seja lá onde for, seja lá quando for, e seja lá quaisquer que sejam as circunstancias e nossas condiçōes físicas ou o que for. Vocë poderá estar me vendo com um olho só, mas meu abraço desfazendo minha saudade vc vai sentir de um jeito ou de outro!

    Te amo!

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