Mais uma vez, Copenhagen

Não tenho palavras para descrever Copenhagen. Pra mim é sem dúvidas a cpaital mais linda da Escandinávia. Não me canso desse lugar. E no outono, as cores simplesmente mudam toda a perspectiva, principalmente se você só conheceu a cidade durante o verão.

Se você me conhece sabe que eu tenho uma compulsão por comprar passagens aéreas, principalmente durante sábados à noite, quando meu nível alcoólico é alto. Compro e não penso. Comprei há mais de um mês e perguntei pro Evaristo, amigo brasileiro que conheci por aqui, se eu poderia ficar com ele. Evaristo é um desses caras que nunca tem tempo ruim. Eu nunca o vi de mal humor. E daquelas amizades em que não existe pressão, podemos ficar de nos falar por tempos, que vai ser sempre a mesma coisa. Porque nós somos bem similares. Eu aprendi a ser calma e levar tudo na boa e ele é calmo. Passar tempo com ele é certeza de boas risadas, cervejas e comida. E era tudo o que eu precisava.

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Por tempos eu queria ir a cervejaria Mikkeller, conhecida pelo mundo. Sempre dava algum problema. Fui uma vez, tomei uma cerveja e deu. Dessa vez nos assentamos e  passamos um tempo conversando e degustando as maravilhas do gêmeo bom. GENTE, vale cada centavo. Finalizamos com um jantar bom-bonito-barato num italiano perto, que me deixa com água na boca só de pensar.

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Não sou local em Copenhagen, mas já fui tantas vezes que meu foco é basicamente comer e beber. E a cidade conta com o melhor complexo de comida de rua escandinavo: Papirøen. Escrevi sobre isso aqui. Nem preciso falar, a foto ilustra bem o meu sentimento de felicidade. Comida boa devia ser lei. O melhor frango frito que comi na vida, melhor do que nos Estados Unidos, do que aqui em OSlo. 100DKK por um box cheio de batatas e frango no Chick Ko. O cachorro-quente,  gigante, seria melhor se estivesse quente. Sou chata mesmo. Bacon frio?  Nah.

Post curto, mas fica a dica: Mikkeller e Papirøen!

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Positividade faz mal à saúde dos outros

Never late to remember. If you want the english or norwegian version, click here 🙂

Outra parte do meu diário da cegueira. Voltei a ter a necessidade de escrever sobre mim, algo que não fazia por algum tempo. Não me importo se estão lendo ou não; minha terapia é essa: escrever.

Tenho me mantido firme e positiva há 21 dias. Brinco, faço piadas sobre mim mesma, e me deixo levar. Hoje pela manhã, pela primeira vez me senti muito mal. Senti a necessidade de ter pena de mim. A mesma pena que eu me recusei a aceitar quando veio dos outros. A tal da “dó”. Do ouvir “tadinha dela”. Ouvir isso esses últimos dias me doeu. Ouvi boas piadas, que me fizeram gargalhar: convites pra assistir a filmes 3D, uma conhecida que tem mais de 20 graus de miopia disse: “E pensavam que eu era cega” – depois de eu colocar os seus óculos e ver que era em vão. O sorriso que saia largado veio amarelo e sem graça, afinal, é verdade: coitada dela, tá cega.

A gota d’água, veio no caminho pro aeroporto. Dislexia e cegueira definitivamente não caminham juntas. Espero que não sejam inimigas. Carregar a mala, descer e subir escadas e tentar achar o voo no monitor de 40″ virou missão de risco. Ah, e a bendita falta de profundidade? Piso baixo, tento pegar as coisas achando que tá perto… Maldita cegueira! Como me readaptar? E daqui pra frente? E as dores constantes durante a noite? E as 16 pílulas, 3 colírios, quando isso vai acabar?

Confesso que não aguento mais. As idas ao hospital, os remédios, a falta de apetite, o peso perdido, tudo isso tá no meu limite. O estresse, a raiva, entalados, por um fio de serem extravasados.

Chorei um dia. E agora, quando o avião decolou. Percebi que não dá pra ser positiva o tempo todo. Tentei ao máximo segurar a bola. Mas o fato das pessoas se assustarem com a minha positividade me desanimou. Por que não aceitar o fato de que sim, dá pra levar a vida numa boa, mesmo com tantos percalços e problemas? Outra: por que ainda se preocupar tanto com o problema do outro, quando só um abraço/ mensagem resolveria?

Depois do meu primeiro desabafo recebi tantas mensagens confortantes que eu era só sorrisos. A minha positividade fez mal a tanta gente que depois de longos e felizes 21 dias, o período tenebroso parece que chegou pra mim.

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Quando foi a última vez que você viu algo com outros olhos?

Cá estou eu, pelo 16ºdia seguido para meu checkup diário. O que eu tenho chamado de checkin, porque o processo, além de chato e entediante, já se automatizou.

Vamos aos fatos. Há algumas semanas atrás eu me queixei de terríveis dores de cabeça que estavam me atormentando e que para mim não passavam de sintomas de stress: finais na faculdade chegando, etc., até que em um belo dia de sol, eu acordei cega do olho esquerdo. Boom!

Cega. Engraçado porque eu sempre tive medo de perder os movimentos das pernas, de perder a audição por completo. Mas o poder de enxergar? Imagina, vão sempre haver oftalmologistas, óculos e lentes de contato. Errado. Me vi 100% cega em um olho que já era mais fraco, mas que eu nunca imaginei que um dia me deixaria na mão.

Do médico particular para o Hospital universitário foi um pulo. 9 especialistas sem saber o que estava acontecendo, excitados com a novidade, já que por aqui eu sou o primeiro caso pelo ao menos dos últimos 15 anos. Contato via twitter com o grande Dr. Raphael Santos, que conhece meus olhos e me acalmou: “Toxoplasmose não é comum na Noruega, mas o tratamento é simples”. Mas, gente, cega, eu?

Mas voltamos ao ponto desse texto: quando foi a última vez que você viu algo com outros olhos? Não estou falando da roupa da sua amiga, do carro do vizinho. Mas, sobre quando você olhou para algo/ alguém e se viu em outro plano?

Assim que ouvi sobre a minha visão, me vi pensando sobre isso. Sobre quantas vezes eu vi o outono chegar por aqui, pegava uma folha, tirava uma foto e postava no Instagram. Dessa vez me vi olhando para as árvores quase nuas e agradeci por ter a oportunidade de continuar enxergando, mesmo que pela metade. Revirei fotos antigas e sorri ao relembrar as minhas últimas férias no Brasil com a minha família, o sorriso banguela da Elisa pelo FaceTime e os dentes enormes e brancos da Bruna quando ela veio me ver em Junho. A primeira foto que eu recebi do bebê da minha amiga-irmã, Arthur, de olhinhos arregalados. Uma foto da minha mãe de calça jeans, enviada pelo meu irmão e que me fez rir por minutos.

E é o que eu tenho feito todos os dias quando eu acordo e vejo que agora, tudo mudou. Eu paro e começo a ver as coisas com outros olhos. Outro sentido. Outro valor.

Não se engane. Eu não estou triste, decepcionada, depressiva ou pagando de Drama Queen (o que eu já sou por natureza). Não sinta pena ou dó de mim. Tenho sido forte e positiva, (fato que, para os que me conhecem é praticamente impossível). Feliz por ter tanta gente com boa energia por perto. Agora tenho buscado informações e grupos de apoio onde eu possa fazer um voluntariado e de alguma forma fazer a diferença. Mas, como tudo na vida, fica o questionamento, outra vez: Quando foi a última vez que você viu algo com outros olhos?

Se você me conhece, sabe que eu escrevo, quase nunca falo sobre problemas pessoais. Hoje eu precisei escrever, no caminho de volta da minha consulta, voltar a ter meu diário. Não são estão sendo dias faceis, tenho ficado muito tempo sozinha exatamente para tentar entender e aceitar isso. A aceitação veio com facilidade, até o meu primeiro tombo de escada. “É, com esse daí eu já não posso contar mais”, pensei.

Sobre a minha a minha doença, volto a escrever depois, com calma. É mais comum do que as pessoas imaginam e, pasme, muita gente tem e não faz a mínima ideia.

Essa foto abaixo foi a última foto que eu tirei antes de começar a perder o olho esquerdo, no dia seguinte. E por mais estranho que pareça, antes de tirar eu me sentei, e comentei o quão lindo o dia foi e estava terminando. Um dia frio, com sol, muitas nuvens e cores. Nem quis editar. Acho que é forte o suficiente para me perguntar todos os dias a partir de agora, quando foi a última vez que eu vi algo com outros olhos.

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