De volta à escola depois dos 25

Não é fácil voltar para a escola aos 28 anos e aprender o ABCD!

Comecei a estudar norueguês no dia 27 de fevereiro, após me registrar poucos dias antes e o rapaz falar: “Talvez você tenha que esperar por 3 meses”. Meu primeiro dia foi terrível. Chorei discretamente dentro da sala ao perceber que aprender uma nova língua seria mais do que um desafio: eu teria que voltar à infância, aprender a emitir sons que eu nunca havia anteriormente.

11h45. Entro na sala com o celular na mão e pergunto em inglês para a professora se eu estava na sala correta. Gentilmente e com um sorriso no rosto ela responde, em norueguês, que sim. Durante a chamada eu tentava decifrar os países de onde toda aquela gente havia vindo. China, Paquistão, India…México… Colômbia! Enfim, eu estava pisando em um terreno amigo. Poderia falar em português, quem sabe!

Durante a aula, eu, sentada na primeira fileira e atenta, tentava entender o que a professora dizia. “Forstår du?” (entendeu?). Minha cara de paisagem certamente respondeu por mim. Eu não estava entendendo nada. Chorei que nem uma criança assustada. Ao final da aula Marina, a professora russa que se mudou para Oslo há alguns atrás, se aproximou e disse: “No início é complicado, mantenha a calma e o foco”. Ninguém falou comigo. Cheguei sozinha e fui embora sozinha. Nada de português ou espanhol. Uma ou outra palavra em inglês e todo o resto e que resto, em norueguês. Em casa, Tomas tentava me acalmar. “Não volto mais” – eu dizia. Mas, no dia seguinte, lá estava eu com a minha mochila colorida nas costas, pronta par um novo dia e uma nova professora.

Aida, veio do Kosovo jovem. Já foi dançarina e guia de museu em Bergen. Hoje, aos 38, diz que ama lecionar e não se vê fazendo algo diferente. A aula foi tranquila e antes da pausa ela me perguntou se eu estava bem. Disse que sim e que agora eu me sentia mais tranquila. “Você consegue”. Ela disse e se despediu.

No intervalo foquei em conhecer alguém. Qualquer pessoa que falasse, até porque são tantos meses aqui e nenhum amigo. Mirei na mexicana Vanessa. Apontei e … “Oi Vanessa, você é de onde?” Bullshit. Icebreaker. Ela riu e respondeu em espanhol. A partir desse dia não soltei ela mais. A nós se juntaram Thapa, do Nepal, Vanina e Valentina, da Bulgária, Irina, de Moldova e Alberto, colombiano. Como diria Vanessa: Los latinos. As pessoas com que eu me sento no intervalo, estudo, gargalho e tudo mais.

A outra metade da sala, agrupa aqueles que têm medo da gente. Ao meu ver porque né? Brasileiro, bunda, peito, samba, esteriótipos. Os mesmos que perguntam se eu sei sambar, se eu uso fio-dental e que arregalam os olhos quando eu entro na sala e dou um abraço apertado em cada um do meu “grupo”.  E os mesmos que nunca me dizem oi quando eu chego, o que me faz pensar: aonde foi que eu errei? hehe  (Tentei por uma semana chegar mais cedo, sentar e conversar. Gente, ninguém falava comigo! Pedi ajuda para me epxlicarem uma dúvida, fingiram que não ouviram hahahahahaha).

Duas professoras. Imigrantes, assim como eu, me ensinando norueguês. Me mostrando que a Noruega é um país acolhedor e que não se muda um norueguês. Que eles bebem muita cerveja, são de poucos amigos e que são extremamente apaixonados pela… Noruega!

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Sobre o Norskkurs:

O direito e a obrigação dos imigrantes a participarem em curso de norueguês e estudos sociais  foi consagrado na lei em 1 de Setembro de 2005.

Se você é um cidadão de um país fora da UE / EEE e está na Noruega como um imigrante de trabalho, você tem a obrigação de tomar aulas de norueguês caso ​​mais tarde você deseje solicitar a residência permanente . O governo oferece 550 horas + 50h de Cultura Norueguesa. Se, após o fim das horas você precisar estudar mais, o governo concede um tempo maior.

Mais informações: http://oslo.itamaraty.gov.br/

Fazendo a diferença!

Na sexta-feira passada eu e a Vanessa, amiga do Norskkurs (post de amanhã!), descobrimos que no sábado era aniversário de uma das
professoras, a Aida. Veja bem, no Brasil eu já teria convocado a galera para fazer uma festinha surpresa adoro festas alheias. Conversei com a Vanessa, que é Mexicana, e resolvemos comprar um bolo para a profe. Detalhe: ao falar com os outros eles olhavam como um quê de “pra quê?”.

Seguimos em frente sem que ninguém precisasse ajudar gastar 3 ovos, cacau em pó, aff, afinal, sempre é bom celebrar e agradecer por tudo que ela está fazendo. Não é fácil ensinar o ABC para maiores de 20 anos, gente! Ontem, terça, eu levei um bolo de chocolate que o Tomas fez (além de cozinhar muito melhor do que eu ele também faz bolos melhores do que os meus!<3) e meu grupinho tão colegial comprou refrigerantes e sucos.

Eu entrei na sala com o bolo com as velas acesas enquanto as meninas cantavam o parabéns. A professora ficou chocada, totalmente sem palavras e depois, mais calma, disse que foi a primeira vez que ela ganhava um bolo dos alunos. Gente, tem 20 dias que eu comecei a estudar. 20 dias. Ou seja, essa cambada de aluno nunca fez nada, nem deu os parabéns!

Fizemos alguém sorrir. Foi um dia e tanto, ela não parava de agradecer e sorrir pra gente. Na aula seguinte, Marina (nossa outra professora) comentou que foi um gesto muito nobre da nossa parte. Uma coisa que pra mim foi tão simples se tornou algo nobre sobo olhar de outras pessoas. Fizemos a diferença!

Fotos: eu sendo linda como sempre e segurando o bolinho. / Aida escrevendo uma mensagem de agradecimento no quadro.

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Campanha educativa para os usuários de transporte público em Oslo

Em alguns posts atrás escrevi sobre como alguns noruegueses são sem educação sem generalizar, pessoal. Empurram, não respeitam filas, não dão lugar para os idosos e grávida aqui não tem moral alguma.

Daí você vem e me fala: “Polyanna, aqui no Brasil é pior”. E eu te respondo: existem pessoas e pessoas. Eu fui criada sabendo respeitar todas as pessoas. Ao meu ver não vou quebrar a perna se der lugar a um idoso ou a uma grávida, ou ficar muda se eu der bom dia. São pequenas ações que fazem o nosso dia mais fácil, mais colorido. Falei pro Tomas outro dia que meu problema é ser uma pessoa boa e solícita demais. Raramente eu digo não ou nego qualquer coisa a alguém. E no final quem leva sou eu…

Enfim. O pessoal dos transportes aqui, a Ruter, andou lendo meu blog  lançou uma campanha de conscientização para a população.  Foram plotadas imagens nas estações de metrô, trem e tog. O engraçado é que procurei mais informações sobre e não achei nada nas redes sociais da empresa. OU seja, campanha meia boca. Poiam reforçar nas redes, mas até agora nada…

As imagens abaixo dizem o seguinte: Obrigada por usar o lixo; Obrigado por respeitar a fila; Obrigado por deixar as grávidas e idosos se assentarem; Obrigado por deixar as pessoas sairem do trem antes de você entrar; Obrigado por preparar (para apresentar) seu bilhete antes de entrar no ônibus; Obrigado por deixar os seus pés no chão.

É engraçado porque são coisas que eu sempre faço e que aqui, as pessoas não ligam. Para mim faltou um obrigado por não empurrar as pessoas. Porque se tem um povo que adora empurrar….  Então caro amigo e amiga, antes de falar que no Brasil não respeitam isso, aquilo, lembre-se que não há lugar perfeito!

Lembrando sempre que tudo o que eu escrevo é a minha opinião, o que eu vivo no dia-a-dia aqui em Oslo. Talvez você conheça alguém que passou por situações diferentes. o que é supimpa! E, no bom português: opinião é que nem bunda, cada um tem a sua! 

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